Hoje
ela acordou, se olhou no espelho e não encontrou mais aquela menina. Tocou em
seu rosto, observou seu corpo, olhou de um lado pra o outro, puxou seu cabelo
pra lá e pra cá, seus olhos escorregaram para a fotografia que estava na cabeceira.
Voltou a observar seu reflexo no espelho e chegou à conclusão que a menina não
estava mais lá.
Muitos
diziam que isso iria acontecer, mas ela não usou a varinha de condão, nem
mágica alguma, apenas a vida sem aviso prévio, sem nem ela mesma perceber
transformou aquela garota e um belo dia ela não estava mais ali.
Ela
se deu conta que seus sonhos não eram os mesmos, o gosto tão pouco, não usava
mais o mesmo corte de cabelo, as roupas eram outras, não ouvia mais a mesma
música, o príncipe não era o mesmo. Aliás, ela já nem mais acreditava em
príncipes. Procurava o cara normal, que como ela tivesse seus defeitos, mas a
fizesse feliz! Na verdade ela não procurava, deixava a vida lhe apresentar. Ela
tinha tomado às rédeas de sua vida e tinha entendido que para ser feliz tudo
dependia dela. Aprendeu a ser feliz sozinha, se valorizando e o tal cara quando
aparecer será apenas para complementar e fazer parte da felicidade e não ser o
motivo.
Ela
tinha aprendido a rir dela mesma, e ainda em frente ao espelho as horas apressadas,
os dias corridos a levaram para ali e quando percebeu a menina tinha saído de
cena para a mulher de compromissos, agenda cheia, horas limitadas entrar. O que
antes lhe tirava o sono, hoje era motivo de graça.
Ela
tinha que estudar, trabalhar, dar conta de tanta coisa que nem parecia mais ser
aquela menina que chorava quando ele não ligava, que se enfurecia quando seu
pai dizia a hora de chegada, que fazia birra quando sua mãe lhe puxava as
orelhas falando aqueles sermões sem fim.
A
menina do all star, agora usava salto
alto para seduzir e ficava descalça para encantar. Seus olhos se tornaram mais
precisos, decididos sabendo o que quer, mas seu sorriso ainda era o mesmo de
moleca.
Ela
foi se transformando, se virando em tantas, em mil sem perder sua essência. Era
mãe, mas também filha. Era doce, mas também onça de virar a mesa. Era chata,
mas sabia provocar sorrisos. Às vezes dava uma de louca, mas também era sóbria,
cumpria com seus deveres e compromissos e quando estava esgotada jogava tudo pra
o alto e fugia pra um barzinho, pra cama, pra seus braços.
Quando
ela se deu conta tudo mudou, tudo havia mudado e ainda se olhando no espelho
sorriu. Era como um filme que se passava em sua cabeça trazendo lembranças. E
no silêncio afirmava aquilo já lhe diziam: - tudo passa e tudo sempre passará.
Nem ela mesma acreditava que tanta coisa iria mudar. Ela agora sacudia sua
cabeça como fosse para afastar as lembranças, terminou de passar seu batom e
riu mais uma vez e percebeu que às vezes sentia falta de tudo aquilo, então
olhou para traz e achou melhor deixar tudo como estava, pois foi à vida
seguindo seu rumo certo e lhe levou para ali.
O
silêncio foi quebrado pelos sons dos seus passos apressado. E lá ia ela a
menina transformada em mulher atrasada para o trabalho pegou a chave do carro e
mais uma vez seus pensamentos trouxeram a lembrança de que antes ela brigava
com o espelho, hoje o velho amigo lhe mostrou que ela cresceu se tornou uma
mulher madura, independente, com tanta responsabilidade, decidida no que quer,
se respeitando, gostando dos seus contornos assim como eram, feliz quando podia
e quando não podia dava um jeito. Seus pensamentos então ecoaram alto entregando
a conversa que ela e o espelho tiveram mais cedo e de sua boca saiu palavras
que falavam no tom divertido: Ninguém é igual à vida toda!
Layssa
Santos
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